Mude, mas comece devagar.
Porque a direção é mais importante, que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa.
Mais tarde mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando, com atenção, os lugares por onde passa.
Tome outro ónibus. Mude por alguns tempos o estilo de roupas.
Dê os seus sapatos velhos, procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia ou no parque e ouvir o canto dos pássaros.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma do outro lado da cama. Depois, procure dormir em outras camas.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra lingua.
Corrija a postura. Coma um pouco menos. Escolha comida diferente.
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores, vá passear em outros lugares, ame muito, cada vez mais.
Se você não encontrar razões pra ser livre, invente-as, seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas, troque novamente, mude, de novo. Experimente outra vez. Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as conhecidas, mas não é isso que importa. O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia.
Só o que está morto não muda.
(Texto de Clarice Lispector.)
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